Sunday, 22 March 2009

As sombras da noite

Lembro-me que as primeiras imagens do sonho eram as paisagens urbanas do caminho para a minha casa. Era o fim da tarde e apresava-me antes do pôr final do sol. Estranhamente, perdi a vontade de ir para casa, até que comecei a andar por uma cidade que não era a minha, entre sombras passavam nas paredes de ruas perpendiculares.

Deixei-me ficar numa ruela que dava para uma intersecção.

A noite caía e aos poucos as luzes acendiam-se.

Continuava sem força nem vontade para chegar a casa. Esta sensação era cada vez menos estranha e sentia-me confortável por estar ali sozinho, parado, à espera.

Até que me pareceu ver a tua sombra numa daquelas paredes.

Como te reconheci a sombra, não sei, mas decidi-me a correr atrás de ti.
Ainda corri bastante tempo atrás de ti, e tu, a andares e sem te virares, continuavas sem me ter a percalço. Eventualmente, o meu corpo desistiu e apenas conseguia andar. Perdi-te de vista, mas continuei a andar. Já não estava na cidade e lembro-me dos campos à volta terem ervas de talos enormes, bastante selvagens.

As luzes, como é normal, já não iluminavam mais que alguns intervalos da estrada.

Lembro-me que me apetecia fumar um cigarro, mas por coincidência, ontem, na vida real, tinha deixado de fumar.

Parei para planear o que fazer, e comecei a pensar na minha casa. Quis voltar para casa, mas estava perdido. Tentei voltar, e algures, já não reconhecia nada que me fosse familiar.

Dei por perdida a noite, e tentei encontrar um sitio onde pudesse esperar pela manhã.

Ao fundo via-se umas luzes ténues e algumas sombras que pareciam blocos gigantes rectangulares. Pensei num armazem de alguma coisa grande. Parecia seguro e sem alma.

Aproximei-me, entrei no recinto (não havia obstáculos) e procurei alguma coisa mais confortável que o chão e metal.

Eis que oiço a tua voz e de repente estavas ali, no meio duma reunião dalguma especie.

Várias pessoas (aliás as suas sombras) rodeavam um dos blocos de metal no centro.

De copo na mão parecias que te estavas a divertir.

Sem saber o que fazer, fui andando ao teu encontro até tu te aperceberes que eu estava ali. Comprimentaste-me com a maior naturalidade, e começamos a falar até não restar mais ninguém à volta do grande bloco central. Falamos dos nossos planos que haviamos feito, das viagens e dos lanchinhos que queriamos fazer por todo o mundo.

Falamos dos filmes, de música e bastante do trabalho que nos preenchia o tempo.

Aos poucos fomos ficando mais silenciosos, lembro-me de ver reflectida a minha solidão em ti. Eventualmente, perguntei-te se querias vir comigo. Para meu contentamento, sorriste com o teu sorriso lindo, e fomos.

Antes que saissemos do recinto, algumas pessoas vieram falar ora contigo ora comigo, e parecia impossível andar um metro que fosse. Sem pararem de chegar e partir, estamos incapazes de sair dalí.

Sem tardar, encontrei-me à espera, enquanto te aborreciam com um longo e fastidioso monólogo. Sem saber o que fazer, acordei.

Tuesday, 14 October 2008

Friday, 3 October 2008

Blaise Cendrars - Rum

Ao procurar por um livro interessante para ler, pois tinha acabado de ler Jubiabá, de Jorge Amado, ia folheando uns livros e por sorte abri este, logo na dedicatória:

"Je dédie cette vie aventureuse de Jean Galmot aux jeunes gens d'aujourd'hui, fatigués de la littérature, pour leur prouver qu'un roman peut aussi être un acte."

Ou seja:

"Dedico esta vida aventurosa de Jean Galmot aos jovens de hoje cansados de literetura para lhes provar que um romance também pode ser um acto"

E assim me atirei para cima da cama e o tenho lido capítulo a capítulo.

Sobre Blaise Cendrars:


Blaise Cendrars (inglês)

Promenores dos anos 20 e 30 na vida de Blaise Cendrars (francês)


Sobre Rum


Rhum - L'aventure de Jean Galmot est un ouvrage de Blaise Cendrars (1887-1961) en 1930.

Rhum est une vie romancée de Jean Galmot (1879-1928), homme d'affaires à la réputation sulfureuse. Devenu député de Guyane, il est accusé de spéculation dans "l'affaire des rhums" qui éclate en 1919. Au cours du procès dont il fait l'objet en 1923, Galmot se présente comme un entrepreneur généreux en butte aux manœuvres hostiles des grands groupes financiers du monde parisien tout en proclamant son amour du peuple guyanais, dont il jure de défendre la liberté jusqu'à la mort. Il est condamné à un an de prison avec sursis. En 1928, Galmot se présente à nouveau aux élections guyanaises qui provoquent des émeutes. Il meurt subitement, dans des conditions controversées. A-t-il été empoisonné ? Rhum, écrit en 1930, s'achève sur cette incertitude. Le procès des émeutiers de Cayenne aura lieu quatre ans plus tard en présence de Cendrars et il se conclura par un acquittement général.

Cendrars a dédié "cette vie secrète de Jean Galmot aux jeunes gens d'aujourd'hui fatigués de la littérature pour leur prouver qu'un roman peut aussi être un acte". Dressant le portrait d'un homme idéaliste et comme lui épris de liberté, il le compare à Don Quichotte. La réalité du personnage était sans doute plus complexe. Historiquement, Galmot aura été un des grands défenseurs de la cause noire, aux côtés de Marcus Garvey.

Avant Rhum, la figure fascinante de Galmot a inspiré deux récits de Louis Chadourne (1890-1925), qui fut son secrétaire, Terre de Chanan (1921) et Le Pot au noir (1922).

(texto retirado da wikipedia francesa )

Saturday, 20 September 2008

Jorge Luis Borges - El libro de los seres imaginarios




Jorge Luis Borges


Introdução:
por Ilídio J.B. Vasco

Em Borges, encontramos a matriz do Fantástico (apesar de não nos esquecermos de Juan Rulfo e do seu Pedro Páramo), que ajudou a construir o edifício de uma ficção hispano-americana de onde brotaram autores como Carlos Fuentes, Julio Cortázar, Garcia Márquez e dezenas de outros que constituíram o chamado boom sul-americano. São poemas, contos, novelas e ensaios recheados não só do brilho da criação literária, mas da sabedoria de que só são capazes os grandes escritores.

Podemos entrever enigmas e até esquecer a pretensão de um título como História da Eternidade, envolvermo-nos no inesperado da Historia Universal da Infâmia, ou na fantasia de o Relatório de Brodie, até chegarmos, às conferências de Sete noites, onde a linguagem, o fantástico e o mais profundo se entrelaçam num único corpo.

Jorge Luís Borges difere da maioria dos seus parceiros, escritores hispano-americanos, em muitos pontos, e não só pela sua formação britânica, mas também pelo carácter mais universalista da sua obra, posicionamento político, etc. Também no tipo de Fantástico que desenvolveu, talvez pela sua particularidade fisíca (a cegueira), Borges diferenciou-se, e o facto reflectiu-se em alguns momentos da sua obra. Isso explica talvez a fixação por alguns temas como a Biblioteca ou o Livro, os Espelhos, os Labirintos, o Tempo a ponto de torná-los locais e objectos especialíssimos.

Borges faz parte da galeria maior dos escritores do século XX, através de um género curto de ficção revela ensinamentos filosóficos. Tornou-se, por isso, um autor que deslumbra

El libro de los seres imaginarios
Ilustrações e tradução para inglês

El Caballo del Mar



A diferencia de otros animales fantásticos, el caballo del mar no ha sido elaborado por combinación de elementos heterogéneos; no es otra cosa que un caballo salvaje cuya habitación es el mar y que sólo pisa la tierra cuando la brisa le trae el olor de las yeguas, en las noches sin luna. En una isla indeterminada —acaso Borneo— los pastores manean en la costa las mejores yeguas del rey y se ocultan en cámaras subterráneas; Simbad vio el potro que salía del mar y lo vio saltar sobre la hembra y oyó su grito.

La redacción definitiva del Libro de las Mil y Una Noches data, según Burton, del siglo XIII; en el siglo XIII nació y murió el cosmógrafo Al-Qazwiní que, en su tratado Maravillas de las Criaturas, escribió estas palabras: «El caballo marino es como el caballo terrestre, pero las crines y la cola son más crecidas y el color más lustroso y el vaso está partido como el de los bueyes salvajes y la alzada es menor que la del caballo terrestre y algo mayor que la del asno». Observa que el cruzamiento de la especie marina y de la terrestre da hermosísimas crías y menciona un potrillo de pelo oscuro, «con manchas blancas como piezas de plata».

Wang Tai-hai, viajero del siglo xviii, escribe en la Miscelánea China:
El caballo marino suele aparecer en las costas en busca de la hembra; a veces lo apresan. El pelaje es negro y lustroso; la cola es larga y barre el suelo; en tierra firme anda como los otros caballos, es muy dócil y puede recorrer en un día centenares de millas. Conviene no bañarlo en el río, pues en cuanto ve el agua recobra su antigua naturaleza y se aleja nadando.

Los etnólogos han buscado el origen de esta ficción islámica en la ficción grecolatina del viento que fecunda las yeguas. En el libro tercero de las Geórgicas, Virgilio ha versificado esta creencia. Más rigurosa es la exposición de Plinio (viii, 67): «Nadie ignora que en Lusitania, en las cercanías de Olisipo (Lisboa) y de las márgenes del Tajo, las yeguas vuelven la cara al viento occidental y quedan fecundadas por él; los potros engendrados así resultan de admirable ligereza, pero mueren antes de cumplir los tres años».

El historiador Justino ha conjeturado que la hipérbole hijos del viento, aplicada a caballos muy veloces, originó esta fábula.

Monday, 15 September 2008

continuação do conto ...

Naquela noite calabrosa, ele mal sabia como ou que o havia levado até aquele lugar. Estava ali perdido desde o nascer do sol. Sua cabeça zunia, seus pensamentos estavam longes, distantes, perdidos em algo que ele não estava disposto a resolver, talvez receoso e com medo. Maldita a hora em que ele havia conhecido aquela mulher.
Enquanto as ondas se quebravam nas rochas, aquele homem desesperançado, amargurava sua vida imbecil. Ele não conseguia entender o por que daquilo tudo. Havia se dedicado todos esses anos em amar aquela maldita mulher infiel, que só sabia magoá-lo e pisar em seus sentimentos.
Uma garrafa de vodka e vários maços de cigarro, nenhum sinal de embriaguez, que inferno, ele pensava, pois nem mesmo ficar tonto ele conseguia mais. E fumando um cigarro atrás do outro ele começou a se lembrar de sua vida com ela. Fora feliz? Não, era gritante. Pois ela já tentou até me matar, ele pensava. Mas que homem infeliz! Aquilo era castigo. Essa história precisava ter um fim.
A garoa começou a cair, ele nem se moveu, ficou ali parado, como se não sentisse, como se não respirasse, totalmente inerte. Não havia mais vontade.
As ondas se debatiam fortemente, um manto de nuvens faiscando eletricidade cavalgava no mar. Ele antes teria corrido para se proteger do aguaceiro que se aproximava, mas as lembranças daquela mulher começaram a fazer efeito, e ele se paralizou. Suas mãos e seus pensamentos tremiam. Levantou a vista e viu o temporal se derramando como manchas de sangue preto entre as nuvens, cegando a lua e estendendo o manto de sombras sobre os telhados e fachadas das casas a beira-mar. A inquietação o comia por dentro e ele recebia todo o aguaceiro como chumbo em sua mente sacramentada. Quando ele tentava organizar seus pensamentos, um trovão descarregou ali perto, rugindo como se um dragão atravessasse a entrada do porto, e ele sentiu o chão estremecer sob seus pés. A frágil pulsação da luz elétrica que desenhava fachadas e janelas se desvaneceu alguns segundos depois. Não se via uma viva alma na praia, o negro do apagão espalhou-se como um alento fétido que subia das valas que íam para o esgoto que rumava ao mar. A noite fez-se densa e impenetrável, a chuva uma mortalha de vapor.
De repente uma voz das sombras: Noite boa para o remorso, senhor . Cigarro?
Ele de tanto sobressalto, sentiu um súbito frio no corpo e deixou o que restava da vodka se espatifar no chão. E sentiu no escuro as mãos de alguém lhe oferecer um cigarro.
O estranho se adiantou até o limiar da escuridão, deixando o rosto escondido. Uma nuvem azul brotava de seu cigarro. Seus olhos brilhavam como duas contas de cristal.
Dá onde havia surgido aquela criatura que parecia ser inumana.

Como se tornar comida?