Monday, 15 September 2008

continuação do conto ...

Naquela noite calabrosa, ele mal sabia como ou que o havia levado até aquele lugar. Estava ali perdido desde o nascer do sol. Sua cabeça zunia, seus pensamentos estavam longes, distantes, perdidos em algo que ele não estava disposto a resolver, talvez receoso e com medo. Maldita a hora em que ele havia conhecido aquela mulher.
Enquanto as ondas se quebravam nas rochas, aquele homem desesperançado, amargurava sua vida imbecil. Ele não conseguia entender o por que daquilo tudo. Havia se dedicado todos esses anos em amar aquela maldita mulher infiel, que só sabia magoá-lo e pisar em seus sentimentos.
Uma garrafa de vodka e vários maços de cigarro, nenhum sinal de embriaguez, que inferno, ele pensava, pois nem mesmo ficar tonto ele conseguia mais. E fumando um cigarro atrás do outro ele começou a se lembrar de sua vida com ela. Fora feliz? Não, era gritante. Pois ela já tentou até me matar, ele pensava. Mas que homem infeliz! Aquilo era castigo. Essa história precisava ter um fim.
A garoa começou a cair, ele nem se moveu, ficou ali parado, como se não sentisse, como se não respirasse, totalmente inerte. Não havia mais vontade.
As ondas se debatiam fortemente, um manto de nuvens faiscando eletricidade cavalgava no mar. Ele antes teria corrido para se proteger do aguaceiro que se aproximava, mas as lembranças daquela mulher começaram a fazer efeito, e ele se paralizou. Suas mãos e seus pensamentos tremiam. Levantou a vista e viu o temporal se derramando como manchas de sangue preto entre as nuvens, cegando a lua e estendendo o manto de sombras sobre os telhados e fachadas das casas a beira-mar. A inquietação o comia por dentro e ele recebia todo o aguaceiro como chumbo em sua mente sacramentada. Quando ele tentava organizar seus pensamentos, um trovão descarregou ali perto, rugindo como se um dragão atravessasse a entrada do porto, e ele sentiu o chão estremecer sob seus pés. A frágil pulsação da luz elétrica que desenhava fachadas e janelas se desvaneceu alguns segundos depois. Não se via uma viva alma na praia, o negro do apagão espalhou-se como um alento fétido que subia das valas que íam para o esgoto que rumava ao mar. A noite fez-se densa e impenetrável, a chuva uma mortalha de vapor.
De repente uma voz das sombras: Noite boa para o remorso, senhor . Cigarro?
Ele de tanto sobressalto, sentiu um súbito frio no corpo e deixou o que restava da vodka se espatifar no chão. E sentiu no escuro as mãos de alguém lhe oferecer um cigarro.
O estranho se adiantou até o limiar da escuridão, deixando o rosto escondido. Uma nuvem azul brotava de seu cigarro. Seus olhos brilhavam como duas contas de cristal.
Dá onde havia surgido aquela criatura que parecia ser inumana.

2 comments:

Pedro said...

"o temporal se derramando como manchas de sangue preto entre as nuvens, cegando a lua e estendendo o manto de sombras"

Que visão!

Está excelente!

Vamos para o 3º capítulo!

cretina said...

q bom q gostou!
vamos continuar!