"Enjoas-me! Vai-te embora!" foram as últimas palavras que ele lhe dissera. Cátia, de joelhos nús na areia, relembrava-se, entre soluços, do quanto era difícil a vida. Ela sempre o amara e tinha-lhe devotado os todos os minutos dos últimos dois anos. Quando tinha sido despedida à 4 meses e sugeriu ir viver com ele, a atitude para com ela mudou drasticamente. Desde então ele tinha deixado de a procurar, eventualmente apenas para umas horas à noite. A sua vida complicava-se, e sozinha, sentia o peso da sociedade nos ombros. Nessa tarde, tinha ido procura-lo ao campo de treino de futebol para lhe pedir ajuda, pois desde então que não tinha conseguido emprego e todos os seus salários anteriores tinham sido gastos nele. "De certo que ele me ajudará" pensara ela. Com as rendas por pagar, sem ninguém para a ouvir, avançou e deixou-se cair de joelhos na areia fria da noite. Já se tinha afastado das luzes da marginal o suficiente para não ser distinguida entre as sombras da noite. Nenhuma estrela brilhava, e a Lua já tinha mergulhado no mar negro. O vento cortava o choro em pequenos gemidos. Entretanto, a maré subia e o som das ondas engolia o que restava do choro. Aos poucos, o mar chegava à sua beira e molhava-lhe as pernas. As sapatilhas rasas já haviam ficado enterradas na areia, à medida que ela se tinha encaminhado para longe dos ruídos urbanos. Com as mãos molhadas da areia, tirou a roupa e deixou-se cair de lado sobre a areia fria. Logo a pele reclamou, e ela contraiu-se, sentindo a pele fria das pernas contra o resto do corpo. As mãos, já dormentes, abraçaram os joelhos. Mas o frio corria-lhe pelas costas; o mar, áspero, ameaçava-lhe as pernas. Lentamente, colheu a roupa e levantou-se. O frio das ondas libertava-lhe gemidos, o frio do vento reclamava as lágrimas. Os pés, a enterrarem-se na área, começaram a furar as ondas, e rapidamente, as ondas subiam palmo a palmo o resto do corpo. À medida que o corpo sentia o gelo do mar, maior era o silêncio. Até não restar mais do que as ondas a arrebentar e os braços a nadar sem destino, em direcção ao fim da noite.
Uma figura, sob a ondulação atravessou-se-lhe, não provocando mais que uma rápida, serena, sombra prateada. Acostumado, o ser rude, indescritível, não iria intervir pois estava a caminho de algo mais importante e longe dali, muito longe, para sul, um jovem virado para o mesmo mar, sozinho, aguardava o nascer do sol.
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3 comments:
quero mais!
:D entao ajuda! escreve o q acontece a seguir :)
vou escrever!!!!
tô pensando em algo bom como o seu!
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