Tuesday, 8 July 2008

Estou sujo. Ruído de piolhos.

mao morta
A Porcaria



Estou sujo. Ruído de piolhos. Os porcos, quando olham para mim, vomitam.
As crostas e pústulas da lepra escamaram-me a pele, coberta de pus amarelo. Não conheço a água dos rios nem o orvalho das nuvens. Na minha nuca, como num fumeiro, cresce um enorme cogumelo, de pedúnculos umbelíferos. Sentado num traste informe, não mexi os membros desde há quatro séculos. Os meus pés tomaram raiz no solo e compõem, até ao ventre, uma espécie de vivaz vegetação, cheia de ignóbeis parasitas, que não deriva ainda da planta mas que já não é carne. No entanto, o meu coração bate. Mas como poderia ele bater se a podridão e as exalações do meu cadárver (não ouso dizer corpo) não o nutrissem abundantemente?

Estou sujo. Ruído de piolhos. Os porcos, quando olham para mim, vomitam.
Na axila esquerda, uma família de sapos fez morada e quando um se mexe faz-me cócegas. Tomai cuidado, não vá fugir algum e que vá roçar com a boca o interior da vossa orelha!... Era capaz de depois vos entrar no cérebro! Na axila direita há um camaleão que lhes dá caça incessante para não morrer de fome: todos têm que viver! Mas quando uma das partes frusta completamente as manhas da outra, não encontram nada melhor que fazer do que não se incomodarem e chupam a delicada gordura que me cobre as costas. Já estou habituado.

Estou sujo. Ruído de piolhos. Os porcos, quando olham para mim, vomitam.
Uma víbora malvada devorou-me o pénis e tomou o seu lugar. Tornou-me eunoco, aquela infame! Oh, se eu tivesse podido defender-me com os meus braços paralisados... Mas creio antes que eles se transformaram em cavacos! Seja como for, importa constatar que o sangue já não vai lá passear a sua vermelhidão. Dois pequenos ouriços, que pararam de crescer, deitaram a um cão, que não recusou, o interior os meus testículos: a epiderme cuidadosamente lavada, meteram-se dentro dela. O anûs foi interceptado por um caranguejo: atravessaram as duas partes carnudas que formam o traseiro humano e, colando-se ao seu contorno convexo, esmagaram-nas tanto por uma pressão constante que os dois pedaços de carne desapareceram, ficando lá dois monstros saídos do reino da viscosidade, iguais na cor, na forma e na ferocidade.

Estou sujo. Ruído de piolhos. Os porcos, quando olham para mim, vomitam.
Não faleis da minha coluna vertebral, porque é uma espada. Sim... Sim, não estava a reparar!... A vossa pergunta tem toda a razão de ser! Desejais saber, não é verdade, como é que ela se encontra verticalmente implantada nos meus rins? Nem mesmo eu me lembro claramente. No entanto, se me decidir a tomar por recordação o que taçvez não passe de um sonho, sabei que o Homem, quando soube que eu tinha feito o voto de viver com a doença e a imobilidade até vencer o Criador, veio por trás de mim, na ponta dos pés... Mas não tão levemente que eu não o ouvisse! Não percebi mais nada durante um instante, que não foi longo. Aquele punhal afiado enterrou-se até ao cabo por entre as duas espátulas do touro da morte e a sua ossatura estremeceu como um tremor de terra. A lâmina adere tão fortemente ao corpo que ninguém até agora a conseguiu extrair. Os atletas, os mecânicos, os filósofos, os médicos, tentaram, cada um por si, os meios mais diversos. Não sabiam que o mal feito pelo Homem não pode mais ser desfeito!

Estou sujo. Ruído de piolhos. Os porcos, quando olham para mim, vomitam.


Transcrito do álbum Maldoror, dos Mão Morta.
Versão portuguesa e adaptação de Adolfo Luxúria Canibal a partir do texto original francês de Isidore Ducasse, O Conde de Lautréamont.

1 comment:

cretina said...

gostei tanto
mas tanto
que é impossível descrever aqui!
lindo!
profundo!
perfeito!

li e reli ...
e não consigo parar de pensar nessa criatura ...