Sunday, 10 August 2008

Uma História a dois

No pequeno sobrado em que funcionou, há tempos, um departamento do Ministério da Agricultura, situado atrás da igreja de São Gonçalo Garcia, residia outrora um opulento capitalista, de nome Rogério, casado com uma senhora cuja perversidade era o terror da mísera escravaria às suas ordens.

Entre os escravos havia uma jovem mulata chamada Julieta, cuja beleza e juventude alvoroçaram, logo que chegou, os sentidos do senhor, homem forte, másculo e ainda relativamente moço.

A maneira branda por que, desde o primeiro dia, começou a tratar a nova escrava, despertou incontinente os ciúmes da esposa, dona Jacinta, que exigiu o mais depressa possível a venda da rapariga, com o que não concordou Rogério, visto as razões secretas que tinha para conservá-la em seu poder.

Suspeitando do esposo, pôs-se dona Jacinta a espioná-lo, habilmente, e foi sem grande dificuldade que ficou sabendo que Julieta era algo mais do que simples escrava...

Capítulo 2: Quem és, Julieta?

Rogério sabia que a sua esposa cedo descobriria os laços que tinha com a escrava.

Ele havia aceitado a crueldade dela como mais um fardo a carregar para além do casamento combinado pelos pais. Desde novo que sabia que aquele dia haveria de chegar, e quando os seus pais o chamaram de Portugal para o casamento com ela, não teve qualquer repulsa em seguir as ordens dos seus pais e agradá-los com este casamento.

Rogério havia vivido toda a sua juventude em Portugal com os seus tios. Seus pais haviam partido para o Brasil para gerir a fortuna directamente, ainda ele estava aos cuidados da sua ama, e o pai deixou-o aos cuidados da irmã e do marido. Apesar de considerar os tios como seus pais, Rogério tinha a vontade de poder um dia cair nas graças dos seus pais verdadeiros. Até lá viveu como filho adoptado do casal aristocrata. Com os seus tios, acompanhou-os nas suas viagens pelas capitais europeias, fez serões com os melhores músicos, discutiu com os pensadores contemporâneos, e chegou a recitar poemas clássicos para os grandes actores do Teatro São Carlos, amigos dos seus tios, com festivos elogios.

Rogério sabia também que o casamento havia sido engedrado pela mãe e filha, pois o pai da sua esposa era um incapaz, fruto de casamentos e nascimentos intersanguineos. As contas estavam falidas à já muitas gerações, e a fortuna que um avó tinha construido, já há muito que havia esgotada. Sobravam apenas o titulo de barão que o avó tinha conseguido, e ao qual o maneirismo da familia se agarrava desoladamente para não serem ainda mais a vergonha da sociedade.

Mas o que preocupava Rógerio estava longe de ser a sua esposa. O que preenchia os seus pensamentos, enquanto fazia a ronda à fazenda, era a origem do nome da Julieta. Haveria de lhe perguntar nessa mesma noite.

Capítulo 3: Quem és? Sonho? Visão? Uma brisa suave na manhã?
Quem és tu?

Julieta passara o dia todo trabalhando amargurantemente e incansavelmente. A pobrezinha havia sido retirada de suas raízes africanas a força.
Enquanto ela esfregava o chão impecável de dona Jacinta, Julieta relembrava os belos momentos em que passara em sua amada terra.
Lá vivia ao norte da Namíbia, com sua família de agricultores. Todos muito pobres, mas unidos. Lá ela fazia parte de uma tribo, em que todos trabalhavam muito e se importavam com o bem estar do outro.
Todas as tardes Julieta (que na verdade se chamava Arria - até seu nome verdadeiro havia sido renegado nessa nova pátria árdua), todas as tardes percorria o deserto profundo e místico de seu antigo mundo.
E foi numa dessas viagens mentais a sua antiga pátria, que Julieta foi abordada covardemente pela terrível dona Jacinta.
Chicotadas, chicotadas nas canelas daquela pobre moça!
Rogério ouvia os gritos de longe e não fazia nada. Mas por dentro ele se remoía, pois estaria sendo um covarde?
A noite preocupado, foi ter com sua amada escrava, que ainda estava muito abatida pela surra que havia levado.
Rogério correu em seu encalço, beijando-lhe os machucados. Queria saber onde estava sua família, se algum teria vindo no navio negreiro. Mas Julieta disse que não, estava só, somente ela nesse mundo voraz que devorava a cada dia que se passava a sua vontade de viver.
Naquela noite, Julieta se entregara àquele homem que ela não conhecia direito, mas que no fundo de sua alma, sentia que era para ser, mesmo correndo todos os riscos.

Capítulo 4: As feridas de amor

Já o sol ameacava aparecer quando a Ti Chica, a matrona, muito sábia e respeitada, veio até à barraca da Julieta. Rogério havia saido algumas horas antes, e Julieta não voltou a adormecer. Por isso, quando ouviu os passos a aproximarem-se, inquietou-se com receio que fosse a Dona Jacinta. Mas ao ouvir a voz da Ti Chica, ainda ficou mais atemorizada.
Ti Chica foi entrando, e com os olhos postos nos da Julieta, deixou as suas rugas formarem um sorriso compreensivo e tranquilo. Ao chegar perto dela, disse, reconfortavelmente:
- O amor é inevitável e ninguém o consegue parar.
Em seguida, da sacola, tirou uns embrulhos que os espalhou ao lado duma Julieta confusa. Para ela, a Ti Chica era a única pessoa em quem confiava, e mesmo os outros escravos lhe eram alheios. Estava completamente sozinha, não fosse a Ti Chica e o Rogério. Mas não esperava que ela tivesse sido tão conformada com a relação que tinha com ele. Já tinha ouvido os outros escravos a falar de revolução, de mudança. Ela temia que, se fosse descoberta, eles também se virassem contra ela. No entanto, naqueles curtos segundos, Julieta apenas via o calor que os doces enrrugados olhos da Ti Chica que lhe davam.
Ela passava agora os dedos numa pasta verde. Com um gesto, pediu a Julieta que lhe mostrasse as canelas. Que visão horrorosa tal eram as feridas que rasgavam a carne. Ti Chica já não tinha o sorriso que havia trazido para dentro da cabana, mas apenas um ar de preocupação extrema. Pensava ela que Julieta teria sofrido terrivelmente ao ter-se arrastado até à sua cabana. Os pés já começavam a ficar frios e roxos da falta de circulação do sangue vivo. Apenas com a paixão que tinha tido com o Rogério lhe havia tirado as dores por umas horas e ele não teria dado conta da gravidade da situação com a escura noite que lhes tinha envolvido. Mas agora era hora de acção, e segurando a mão de Julieta na sua, espalhou a pasta com a outra mão sobre as lacerações. Julieta contorcionava-se de dor. Aos poucos, intercalados de pequenos intervalos para que Julieta não desmaiasse de dor, os rasgos ficaram todos cobertos. Encostando a cabeça de Julieta no seu peito, a embalou até que ela adormecesse de tanta dor, cansaço e alívio. Pousou-a gentilmente na cama e saiu. Julieta havia, se tudo correr normalmente, de recuperar em poucos dias. Agora tinha que se encontrar com outro escravo. Em breve não haveria mais Julietas feridas. Não podia. Tem que haver mudança, pensava ela repetidamente, enquanto se aproximava.

Capítulo 5: Quem dorme com mulher feia, não tem medo de assombração


Uma tempestade se aproximava na vila, as árvores se debatiam com tremenda força que chegava a dar medo. Rogério distante se encaminhava ao casarão, para jantar com sua mulher Jacinta. Essa, era uma figura de dar dó, mulher feia, corcunda, possuía uma verruga imensa e cabeluda no queixo. Sua dentadura amarelada fedia a enxofre. Suas unhas grandes e encravadas remetiam a nojo profundo. Era uma criatura abominável. Seus cabelos fediam tutano de boi. Seus olhos zarolhos chegavam a confundir o mais vil demônio. Seus seios murchos e caídos chegavam a cintura. Seu suor dava vômitos. Aquela mulher não tinha um pingo de sensualidade, apenas ranso.

No casarão a mesa estava posta, com todas as regalias de um rei. Jacinta já estava toda arrumada, com um belo e caro vestido bordado com fios de ouro. Mas de que adiantava tanta pompa? Era um demônio que o vestia!!!! hahahahahahahahahaha

Rogério sabia que quando sua terrível mulher colocava aquela roupa, era dia de cumprir com seus deveres matrimoniais. Coitado.

Acabada a janta, Jacinta o pegou pela mão e disse: vamos aos nossos aposentos, homem do céu, não me deu um filho até hoje! Mas isso se acabará ...

Jacinta retirou seu vestido nobre e Rogério ficou pasmo, fazer amor com aquela mulher, além de feia, má? Era um desaforo. O que ele estava fazendo da sua vida. Enquanto ele cumpria seus deveres com Jacinta, ele pensava em como Julieta era diferente, seu cheiro era especial, suas curvas, sua bondade ... mas foi disperso dos seus sonhos quando Jacinta disse: vamos fazer amor olhando no espelho!!!!!!


ÓH deus!



Capítulo 6: O corpo perdido

Com a luz das velas interrompidas pelos relámpagos, Rogério via a enjoante nudez de Jacinta espelhada. A cada movimento dos corpos, o seu se vomitava silenciosamente. Não havia sentido seu que não estivesse torvado pela presença da sua mulher. Os olhos secos e vermelhos mais tempo passavam fechados; as mãos se contorciam, já dormentes, envoltas no lençol para que não tivesse qualquer contacto com a putrefacta; o nariz havia já muito que se tinha recusado a inspirar o ar fétido, e agora, lhe ardia em toda a profundidade até lhe queimar o cérebro; seus ouvidos já se tinham posto a later de tal forma, que lhe todo o maxilar tremia a cada guincho vindo dela; a boca sabia-lhe a sangue de, futilmente, querer arrancar com os dentes, o sabor que ela lhe havia deixado a cada beijo forçado.
Ah, que choro lhe corria pela alma. Estava tão desolado que a imagem de Julieta lhe aparecia como uma sombra sem forma. Ele sabia que ela estava ali nos seu coração, mas tão longe. Ele sabia que, se a sua mulher conseguisse gerar um filho no seu corpo envenado, seria o fim para Rogério e Julieta. Teria que encontrar alguém que fosse capaz de se certificar que nada nascesse dentro daquele antro de carne. Teria que o fazer o quanto antes. O seu casamento já se arrastava, seria a única saída para acabar com ele: uma esposa infértil.
Enquanto que a mente de Rogério se afastava cada vez mais do quarto, Jacinta se irritava a cada compulsão. Ela própria tinha noção que o seu corpo frio e áspero não conseguia exitar o corpo do seu marido. Por isso, durante o jantar, já havia posto 3 doses de uma poção oferecida pela sua mãe. Esta tinha usado o mesmo frasco na sua noite de núpcias, e dessa noite, havia nascido a sua única filha. Com comprovada eficácia, Jacinta apenas tinha que esperar pela reação de Rogério. Nem que tivessem que ficar naqueles lençois durante dias.
Rogério fluia cada vez mais para longe mas sentia algo de errado. O seu corpo cada vez ofegava mais, sentia mais força, cada vez mais poderosa. Mas os seus pensamentos corriam em torno de coisas desconexas. À medida que sentia o corpo cada vez mais selvagem, foi perdendo o controlo do seu corpo, até que o vazio lhe invadiu por completo a mente. Oh, o que havia feito ele...

Capítulo 7: Veneno da madrugada

Zenóbio, o capanga de Jacinta estava a par de tudo o que acontecia entre Rogério e Julieta, ele era como uma sombra, e cada passo que o marido de sua patroa dava era relatado nos mínimos detalhes a Jacinta.

Naquela tarde, Zenóbio estava encarregado de encontrar um pé de mamona, para extrair rícino, pois dona Jacinta iría preparar um veneno letal para Julieta. Para ele essa tarefa era um imenso prazer, pois ele como sua patroa, eram de uma maldade e crueldade de dar medo no mais vil bárbaro.

Terminada a tarefa, Zenóbio levou sorridente as mamonas para Jacinta, que foi para o porão imediatamente preparar a toxina que levaria aquela escrava à morte. Mas não era só isso que Jacinta tramava, algo pior estava sendo mentalizado por ela. Essa noite, Rogério iria caçar capivaras com seus amigos e Jacinta praticaria uma grande festa da crueldade!

Após a saída de Rogério, Jacinta ordenou a Zenóbio que levasse Julieta ao porão, lá já estava tudo preparado para sua vingança. Jacinta estava como um pavão, toda emplumada, havia se vestido com imenso prazer para praticar suas maldades, fez uma maquiagem diabólica, pintou suas unhas de vermelho sangue, amarrou seus cabelos para cima que dava a impressão de possuir chifres, derramou um vidro de seu melhor perfume sobre si, estava insana.

Assim que Zenóbio chegou no porão ficou vislumbrado com a sórdida cena, velas em todos os cantos, correntes, alicates de tortura e um caldeirão com o veneno aquecido. Sentada em uma cadeira bestial Jacinta dava gargalhadas enlouquecidas. Julieta ficou pasma.

Julieta foi acorrentada, torturada, suas unhas foram arrancadas uma a uma, sua língua foi cortada, e sua pele negra foi queimada com ferro de marcar gado. Julieta já não aguentava mais, e a pior parte estava para vir: o veneno.

Foi aí que....


Capitulo 8: A revolta


... se começaram a ouvir tumultos. Cada vez se tornavam mais audíveis, mesmo com os gritos sufucados pelo próprio sangue e lágrimas da Julieta. Zenóbio começou a balancear de medo, pois os sons ouvidos ecoavam por todo o porão. Era sem dúvida uma multidão enfurecida. Jacinta não quis perder tempo, e lançou-se ao caldeirão. A sopa de mamonas estava pronta a ser servida; ela verteu da enorme colher para o calice de metal rude e encaminhou-se na direcção da Julieta acorrentada. Mas na sua direcção também o rugir do tumulto se aproximava. Jacinta ria sozinha como louca. Julieta chorava e berrava sangue. Todo aquele ruído embatia na cabeça de Zenóbio como uma parede. Também ele agora gritava de loucura. De olhos cheios de raiva, teve um momento de clareza. Não podia ser encontrado do lado da Jacinta. Ele sabia que os escravos andavam embrutecidos com a maldade que os dois lhes causavam. Só havia uma saída! Saltou sobre Jacinta que entornou o cálice sobre si. Rapidamente Zenóbio imobilizou-a contra a poeira do chão enquanto que ela gritava e esperneava. Os gritos perceptiveis da sua boca desformada e coberta de pó eram de sofrimento pelo seu vestido, que se coloria de amarelo poerento. Com um soco, fê-la calar por uns momentos. Já se ouviam as vozes de comando do outro lado da porta maciça. Levantou Jacinta pelos cabelos e a puxou para junto da porta. Jacinta cuspia pó e sangue em todas as direcções até a sua cara ter encontrado a porta que tremia dos encontrões dos escravos. À medida que Zenóbio começou a puxar os ferros da porta, o silêncio foi-se instalando do outro lado. Até que ao cair do último ferro, a porta se entreabriu. Logo se seguiu um rugido e Jacinta foi arrancada de Zenóbio. Este tentou falar mas foi rapidamente lançado ao chão com uma foice que lhe cortou a cara. Dois escravos enormes lançaram-se a ele e em poucos segundos, ficou paralisado com a dor dos ossos partidos. Já com Jacinta e Zenóbio a serem arrastados pela violência dos que se encontravam lá fora, Mino apressou-se a socorrer Julieta. Mas como? Ao tirar os guilhões, pedaços de pele ficaram agarrados a estes, e aos poucos, Julieta foi perdendo as suas forças e desmaiou nos braços de Mino.

Entretanto, as gentes invadiam o quarto da senhora atirando tudo pela janela: vestidos, plumas, perfumes, móveis, espelhos ... Seguindo as ordens de Mino, deixaram tudo o que não pertencia a ela intacto. Com os aposentos destruídos e vazios, Jacinta engolia ainda o pó que se lhe misturava com o batom. Estava a ser arrastada para a frente da sua casa, e foi aí que teve o seu maior desgosto ao ver as suas coisas mais preciosas a esvoaçarem pelas janelas. O escuro da noite já cobria os céus, e em curto momento, com várias torchas, a pilha voltou a tornar a escuridão em dia. Aos gritos desesperados de Jacinta, agora ela própria acorrentada, respondia a chama, crepitando.

Mino entrou no mucambo da Ti Chica com Julieta nos braços. Esta examinou com cuidado a desmaiada e tremeu a cada contorno do corpo desfeito de Julieta. Consentiu Mino a retirar-se e falou para um moço para ir no porão procurar o que restava da língua.

Pouco depois, Mino aproxima-se da Jacinta rouca e sem hesitar, serra-lhe a mão direita. Em convulções é pendurada pelos pés e chicoteada até perder a consciência. Haveria de ficar ali para que os mosquitos a devorassem até à demência. Feito os seus deveres, o grupo de escravos encaminhou-se para os seus mucambos para preparar a viagem ao encontro de um quilombo que se aglomerava a algumas horas de distância.

Capítulo 9: pomba gira faz milagre

O coração amargurado de Jacinta se apertava que chegava a doer, ela nem se importava com sua morte que estava próxima, mas sim com seus bens materiais estraçalhados e jogados ao relento. Em cada vestido, cada jóia, cada pintura destruída ela sentia uma fincada no coração. Que mulher mais egoísta e presa aos bens materiais. Sua garganta já sentia o efeito maligno do veneno, ela realmente sabia que sua morte seria horrível, mas ela nem se importava com isso, e nem mesmo com o filho que estava em seu ventre, filho este feito a base de macumbas fortíssimas em seu último jantar com Rogério. Ela só se importava com suas futilidades. Será que ela achava que iría levar suas coisas para seu túmulo perpétuo? Estava enganada.

Um escravo muito musculoso a puxou pelo cotoco de braço que lhe restava e a amarrou ao pelourinho, sua pele já estava bastante decomposta pelas chamas da rebelião, mas aquela mulher ingrata e má não sentia nenhuma dor, só poderia ser um demônio que habitava aquele corpo, ela não merecia perdão, ela só merecia a morte mais dolorida que já existiu nessa terra. O veneno foi lhe descendo garganta a fora cortando tudo o que havia na frente, sua cabeça já não funcionava bem, Jacinta começava a delirar até que Zenóbio, se arrastando em meio ao grande tumulto, coberto de sangue e com o cérebro quase exposto lhe pegou pela mão que lhe restava lhe dizendo: "me desculpe minha senhorinha, não era a minha intenção, me perdoe, só assim morrerei em paz". Jacinta ainda teve um lapso de lembrança em meio a sua morte e lhe cuspiu na cara o amaldiçoando eternamente. O capataz morreu ali mesmo, olhos aterrorizados pela praga de sua patroa. Ela ficou olhando, sem um pingo de dó e de gratidão, rindo loucamente seu corpo e alma despediram-se para sempre dessa vida de rancor.

Enquanto isso, na cabana da feiticeira Ti Chica, Julieta desmaiada não dava o mínimo sinal de vida. Ti Chica decidiu invocar todos os santos do candomblé, até mesmo aqueles que ela nem gostava de pedir ajuda no pior momento, como a pomba gira. Logo após o escravo ter trago o que sobrara da língua de Julieta, a feiticeira ordenou que o escravo fosse buscar as oferendas necessárias para o seu ritual: arnica, cachaça da boa, fumo de rolo, palha, velas, e o mais estranho de todos: sangue retirado diretamente da jugular de dona Jacinta. O escravo imediatamente foi providenciar as mandingas, e Ti Chica foi até seus vidros de magia negra procurar o que ela necessitava. E foi cantando:

Quem não me tem, que não me inventi, quem me inventar que me aguente, sou Maria Padilha, corpo de moça e natureza de serpente.

Ti Chica realizou sua cerimônia com esmero e concentração, ela sabia da força da pomba gira, e no fim de tudo conseguiu costurar a língua de Julieta, além de passar um emplasto que curaria as marcas na pele de ébano da mesma. Quando teve certeza que ela ficaria bem, partiu com os demais escravos para o quilombo onde viveria em paz o resto de sua vida.

Julieta ficou sozinha naquela fazenda destruída, esperando por Rogério, que estava a caminho de uma nova vida com sua amada.


2 comments:

cretina said...

ÊTA PEDRO!
Esta nossa novelinha está ficando muito engraçada!
Novela mexicana!!!!
kkkkkkkkk

Pedro said...

ena! há esperança para os 2!! q bom!

PS: n recebi nenhum outro mail. fico contente por teres recebido o teu!